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O Hobbit, a obra mais infantilizada de Tolkien, traz à nossa mente diversos preceitos e ensinamentos. A psicanálise dos contos de fadas é uma forma de entendermos os autores e suas mais belas obras.

Prova disso, são os conceitos morais e psicológicos que os escritores retratam através de suas estórias. É bem verdade, que Tolkien sempre esteve preocupado em passar uma ideologia correta e sábia em seus trabalhos. É notório que ele se detém na posição de um belo onisciente em seus escritos, antecipando casos e alguns acontecimentos, principalmente aos pequenos leitores. O que me chama atenção nas obras de Tolkien é a maneira como os valores de confiança, valorização do próximo, otimismo, amizade, amor e esperança são evidentes. Os quais deveriam ser mais presentes em nossos tempos.

Os contos de fadas possuem uma narrativa curta, onde o personagem principal tem de enfrentar grandes obstáculos antes de triunfar contra o mal. Caracteristicamente envolvem algum tipo de magia, metamorfose ou encantamento, e apesar do nome, as fadas nem sempre estão presentes. Fica claro que ao criar suas obras, o professor fez questão de usar os conceitos explícitos nos contos de fadas adaptando a uma mitologia inteiramente criada por ele. Prova disso, é a saga do anel que se deu início através da estória de Bilbo. Ávidos pos saber as intenções de Tolkien, muitos fãs ainda se questionam se ele criou um mito, uma fábula ou apenas um extenso conto. Digo com certeza em meu coração, que o professor não só criou uma saga, mas também uma mitologia completa apreciada por muitos.

No epílogo do livro Sobre Histórias de Fadas Tolkien faz a seguinte observação:

“Provavelmente todo escritor que faz um mundo secundário ou uma fantasia, deseja em certa medida ser um criador de verdade, ou espera estar se baseando na realidade: espera que a qualidade peculiar desse mundo secundário (senão todos os detalhes) seja derivada da realidade, ou flua para ela. Se conseguir de fato uma qualidade que possa ser descrita honestamente pela definição de dicionário – “consistência interna da realidade” -, é difícil conceber como isso pode acontecer se a obra não tiver algumas características da realidade. A qualidade peculiar da “alegria” na Fantasia bem-sucedida, pode, portanto, ser explicada como um repentino vislumbre da realidade ou verdade subjacente. Não é apenas um “consolo” para o pesar do mundo, mas uma satisfação, e uma resposta à pergunta: “É verdade?”A resposta a essa pergunta que dei inicialmente foi (muito corretamente): “Se você construiu bem seu pequeno mundo, sim, é verdade nesse mundo”. Isso basta ao artista (ou à parte artística do artista).”

Mas O Hobbit seria um conto de fadas? Até que ponto Tolkien usou os elementos dos contos clássicos? Pelo seu núcleo problemático ser existencial, os contos de fadas podem também ser estudados como uma jornada em quatro etapas. Em um determinado momento acontece “a passagem”, onde o personagem é levado à uma terra diferente, marcada por acontecimentos mágicos ou criaturas desconhecidas. Ocorre também “o encontro” com a figura antagonista – uma madrasta malévola, um ogro assassino, um mago ameaçador ou outra presença com características más. Posteriormente acontece “a vitória”, em que ocorre a derrota do inimigo. Por fim culmina na “celebração”, onde acontece um casamento de gala ou uma reunião de amigos, em que a vitória sobre o mal é enaltecida e todos vivem felizes para sempre.

Sabendo disto, é fácil notar as semelhanças na obra de Tolkien. Vamos começar a nossa análise por um simples momento meus irmãos: Ao sair de casa para ir à “caça ao tesouro” com os anões, Bilbo, não leva lenço algum. Esse pequeno detalhe, evidencia a quebra do paradigma de um bolseiro(no caso de Bilbo), que era sempre metódico em suas ações e não tinha gosto por aventuras.

“Os Bolseiros viviam nas vizinhanças da Colina desde tempos imemoriais, e as pessoas os consideravam muito respeitáveis, não apenas porque em sua maioria eram ricos, mas também porque nunca tinham tido nenhuma aventura ou feito qualquer coisa inesperada..,” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 01)

A incrível jornada pela qual o pequeno ser haveria de passar o pegou desprevenido, fazendo deixar para trás até mesmo seus costumes mais simples, como: comer abastadamente, ter tudo ao seu controle, sentir segurança e até mesmo um lenço. A aventura se iniciou e em diversos momentos Tolkien faz questão de vivificar a nova fase que seu personagem enfrenta com arrependimento e desgosto:

“…resmungou Bilbo, chapinhando atrás dos outros numa trilha muito lamacenta. Já passara da hora do chá e chovia a cântaros, como chovera durante todo o dia; do capuz pingavam gotas que lhe entravam nos olhos, a capa estava cheia de água; o pônei estava cansado e tropeçava nas pedras; os outros estavam amuados demais para conversar. “Com certeza a chuva penetrou na roupa seca e nas mochilas de comida”, pensou Bilbo. “Maldita ladroagem e tudo o que tem a ver com ela! Gostaria de estar em casa, na minha gostosa toca, ao lado do fogo, com a chaleira começando a cantar!” Não foi a última vez que desejou tal coisa!” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 30)

A aventura toma a maior parte da narrativa sendo que nota-se em alguns pontos o início da segunda etapa que denominamos de “o encontro”, sendo o primeiro deles com os Trolls na floresta:

“Mas eram trolls. Obviamente trolls. Até Bilbo, apesar de sua vida pacata, podia perceber isso: pelas grandes caras pesadas, pelo tamanho, pelo formato de suas pernas, para não falar no linguajar, que estava longe de ser adequado para uma sala de visitas, muito longe.” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 33)

No momento em que Bilbo encontra os Trolls, ele se assusta (eu também me assustaria) e deseja estar à milhas de distância daquele lugar. Dessa forma, é ressaltada a fragilidade do cativante personagem que passa por situações cada vez mais difíceis. Ao entrar no covil do dragão, Bilbo vislumbrou o encontro mais pavoroso de sua vida, o que nos faz ligar o dragão Smaug à figura do antagonista:

“Lá estava Smaug. As asas recolhidas como as de um morcego incomensurável, virado parcialmente para um lado, de modo que o hobbit podia ver… Dizer que Bilbo perdeu o fôlego não é uma descrição adequada. Não sobraram palavras para expressar a sua vertigem…” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 210)

O momento da derrota do dragão dá inicio à terceira etapa muito usual nos contos de fadas que é a fase do triunfo ou vitória. Mesmo que morto pelas mãos de outro personagem, no caso Bard, o inimigo foi aniquilado abrindo assim uma oportunidade para que a comitiva que estava em busca do tesouro pudesse seguir em frente:

“Com um guincho que ensurdeceu os homens, derrubou árvores e partiu pedras, Smaug arremessou-se em chamas pelo ar, virou-se e caiu das alturas, derrotado.” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 243)

A sucessão de fatos na narrativa nos leva ao final da estória, onde Tolkien elucida o festejo de Bilbo no encontro com Gandalf e Balin:

“Entrem! Entrem! — disse Bilbo, e logo eles estavam acomodados em poltronas ao lado do fogo.” (J.R.R Tolkien, O Hobbit, pg. 291)

Percebemos que com uma releitura baseada nos contos clássicos, O Hobbit, pode ser considerado um conto de fadas. Pode não ser um veredicto, mas é uma verdade. A priori, podemos entendê-lo com a semente de uma grande árvore, afinal foi a primeira obra de Tolkien. Podemos extrair diversas lições de superação, perseverança e até como guardar um segredo por um bom tempo, assim como Bilbo fez com o anel. Que cada um guarde o segredo que lhe aprouver (Se for um dos anéis do poder, me contem, por favor). Mas com toda essa análise vemos que o grande segredo de Tolkien foi revelado. Assim como eu, ele acreditava no feliz para sempre:“…embora poucos acreditassem em alguma de suas histórias, ele foi muito feliz até o fim de sua vida, que foi extraordinariamente longa.”

 

Written by | Diego Silva

Diretor da Medieval and Mythology, Teólogo por formação e Mitologista por paixão.

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