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Fábula, estórias ou lendas. Chamem como quiserem meus amigos, mas é inegável que apesar de nascerem de diversas mitologias, todas… eu disse: Todas! Possuem semelhanças, seja em quesito moral ou até mesmo mitológico.

A grande obra de nosso professor Tolkien também se enquadra nessa afirmação. Claro que, não estamos falando de plágio, estamos apenas falando de bases literárias. Nórdica, celta, escandinava, egípcia entres outras diversas referências mitológicas são encontradas nas criações de Tolkien. Cada mitologia que o professor utilizou… enfim! Sei que estão curiosos quanto ao título, então vamos ao que interessa nesse texto. Existem semelhanças entre as lendas Arturianas e as obras do professor Tolkien? Eu atenho-me em posição de afirmação contínua e pessoal, ou seja: Sim! E mais ainda, quais são as semelhanças? (adoro responder a mim mesmo) Bom, pra que fique bem explicado vamos traçar paralelos entre as lendas de Artur começando com a pergunta: quem foi Artur?

Até hoje não sabemos ao certo, mas segundo a tradição descrita no Mabinogion (coletânea de manuscritos em galês medieval) Artur floresceu na imaginação popular, por volta do século X, aparecendo em inúmeras delas como imperador e até mesmo Rei. No livro O rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda de Thomas Malory é dito o momento em que Arthur é entregue a Merlin e guiado pelos seus conselhos:

Há muitos anos, quando Uther Pendragon era rei de toda a Inglaterra, o país ainda estava dividido em muitos feudos e outras terras fortificadas, cujos senhores muitas vezes travavam guerras entre si. Dentre os que não acatavam a autoridade real estava o Duque de Tintagil, da Cornualha. Uther Pendragon fez-lhe uma proposta de paz, e o duque veio até seu castelo para acertar os detalhes desse acordo. Levou consigo sua mulher, Igraine, que era muito bonita. Tão bonita que o rei se apaixonou por ela. Antes que as negociações chegassem a um bom termo, o Duque de Tintagil notou a paixão de Uther por Igraine e, temendo enfrentar os cavaleiros do rei pela honra de sua mulher, resolveu partir com seus homens e Igraine. Quando o rei Uther soube da partida repentina do duque e da esposa, enfureceu-se e enviou mensageiros chamando-o de volta, dessa vez, sob grande ameaça: a negativa do duque deflagraria a guerra.

Ao receber a resposta de que o duque estava se preparando para resistir, o rei ficou completamente irado. Com seu grande exército sitiou o castelo de Tintagil. Travou-se assim uma batalha feroz em que muitos morreram de ambos os lados. A resistência do duque e a impossibilidade de possuir Igraine aumentaram à ira de Uther Pendragon, que acabou adoecendo de raiva e de paixão. Então, um de seus soldados partiu em busca de Merlin, o único homem que poderia acabar com a dor que afligia o coração do rei.

O Mago Merlin conhecia os mistérios do céu e da terra, da vida e da morte, dos homens e dos deuses. Alguns o chamavam de feiticeiro; outros achavam que ele era um santo. Todos, porém o reconheciam como um dos homens mais sábios dos tempos imemoriais. Por isso o soberano mandou procurá-lo. Merlin não tinha endereço certo. Dizia-se que vivia em no meio das neblinas de Avalon, uma ilha no meio de um lago, que abrigava um reino misterioso. Era o antigo País das Fadas, uma região tão indefinida que suas fronteiras apareciam e desapareciam, recuando para mais longe à medida que a Inglaterra ia consolidando seu reino. Mas não era preciso ir até Avalon para achar Merlin: ele costumava aparecer nos lugares mais inesperados e, muitas vezes disfarçado. Dessa vez o cavaleiro encarregado de encontrá-lo deparou com um velho mendigo, que lhe perguntou:

– Que procurais?

– Não é da tua conta – respondeu o cavaleiro.

– É sim – disse o velho – vós procurais Merlin, que sou eu. E se o rei jurar que me dará a recompensa que eu pedir, vou fazer o que a Vossa Majestade deseja. Volta para dizer isso a ele e avisa que não demoro.

Assim foi feito. O cavaleiro levou a mensagem a Uther Pendragon e, pouco depois, Merlin chegou ao palácio.

– Meu senhor, sei o que se passa em vosso coração e posso prever o que pode acontecer. Ajudarei Vossa Majestade a Ter Igraine, se prometerdes cumprir meu desejo: na noite em que deitardes com a duquesa, ela conceberá um filho que deverá ser-me entregue assim que nascer para que eu o crie e eduque.

Não foi difícil ao rei jurar a Merlin que assim seria feito, pois seu amor por Igraine era imenso.

– Pois então preparai-vos – prosseguiu Merlin. – Porque esta noite o Duque de Cornualha tombará numa batalha e, antes que a notícia se espalhe, iremos ao castelo onde está a duquesa; por artes do encantamento terás o aspecto e as feições de seu mais fiel cavaleiro. Ninguém nos reconhecerá, nem mesmo Igraine, que se deitará com Vossa Majestade sem resistir.

Tudo aconteceu exatamente como ele dissera. E assim que Pendragon e Merlin, disfarçados e irreconhecíveis, saíram do castelo de Tintagil em plena madrugada, chegaram os mensageiros com a informação de que o duque havia falecido muitas horas antes. Naturalmente, a duquesa ficou espantadíssima por Ter passado a noite com seu marido quando ele já estava morto. Mas não disse nada a ninguém e cobriu-se de luto como convinha a uma viúva. Após algumas semanas, Igraine descobriu que estava grávida. Por isso, logo em seguida, quando recebeu uma proposta de casamento do rei da Inglaterra, concordou muito satisfeita: seria rainha e teria um pai para seu filho.

Como não queria esconder nada de Uther, a rainha sentiu-se obrigada a contar-lhe sobre o cavaleiro misterioso que a visitara na noite em que o duque morrera. Satisfeito com a sinceridade dela, o rei confessou que fora ele o estranho visitante. Igraine ficou aliviada e feliz ao saber que o pai do filho que esperava era o próprio rei. Ele então mencionou a promessa feita Merlin, mas ela não deu a maior importância a isso. Porém, pouco depois, o velho mago veio ao castelo de Pendragon explicar seus planos.

– Meu senhor – disse ele – a criança que a rainha espera será um menino e um grande rei. Será necessário educá-lo para ser o maio soberano de nossa história.

Uther Pendragon também se preocupava com isso e temia pelo destino da criança. Sabia que, se ele morresse, o filho correria um grande perigo, pois todos os seus inimigos tentariam eliminar o herdeiro do trono.

– Merlin, faça como achares melhor. Seguirei todos os teus conselhos. Quero que meu filho seja bem educado para suas funções, mas antes de tudo quero que sua vida seja protegida- respondeu o rei.

O sábio já tinha planejado tudo:

– Quando a criança nascer, virei buscá-la. Ninguém saberá onde o menino está, para a própria segurança dele. Apenas vós e eu. Um dos nobres desta terra, Sir. Ector, é um homem bondoso, valente e justo, merecedor de toda a confiança. A mulher dele vai Ter um bebê na mesma época que a rainha e poderá amamentar o herdeiro do trono. Eu o levarei para Sir. Ector, que tem propriedades na Inglaterra e em Gales. Nós o batizaremos com o nome de Artur e o criaremos com carinho, em segurança, para que ele possa ser, um dia, um grande rei, digno de continuar vosso reinado.

Assim o pequenino Artur foi levado do castelo, enrolado num pano tecido com fios de ouro e entregue a um mendigo que esperava junto a porta dos fundos – o próprio Merlin. E nas terras de Sir. Ector ele cresceu, desconhecendo sua origem e o destino que estava a sua espera.

Ao ler esse trecho, devemos fazer algumas associações. É certo que Tolkien inspirou-se em Merlin ao criar Gandalf e inseri-lo no contexto de um rei ainda não governante. Assim como Merlin, Gandalf estava sempre disposto a ajudar não importando da maneira que fosse. A todo o tempo Merlin acompanhou e aconselhou Artur antes mesmo que se cumprisse seu destino: Se tornar rei. Gandalf torna-se uma peça chave no desenrolar da obra de Tolkien, mantendo um contato maior e direto com Aragorn desde mesmo quando era um guardião do norte e não havia tomado posse de seu destino.

Seguindo o arquétipo de cavaleiro ideal, que luta pela lealdade e justiça Aragorn iguala-se a Artur. Algumas das versões desta lenda contam que, antes de criar a Távola Redonda, Rei Arthur enfrentou um poderoso guerreiro. Prestes a ser derrotado, Arthur fez uso de Excalibur de modo a reverter a situação do combate. A espada se quebrou com o golpe. De igual forma aconteceu com Narsil, a espada de Aragorn, enquanto ainda estava com um de seus antepassados:

“Eu vi o último combate nas encostas de Orodruin, onde Gil-galad morreu, e Elendil caiu, e Narsil se quebrou sob seu corpo. Mas Sauron foi vencido, e Isildur cortou o Anel de sua mão com o fragmento do punho da espada do pai, e pegou-o para si.” (O Senhor dos anéis: A sociedade do anel, pag. 257)

Muito sábio e perspicaz, Gandalf fixa-se no papel de estrategista e conselheiro exercendo um grande destaque em o Senhor dos anéis, principalmente quando a sociedade do anel é formada. Aliás, nota-se que as coincidências não param por aí: No filme O Senhor dos anéis: A Sociedade do Anel, existe uma referência marcante sob a visão do diretor. Quando estão em Valfenda, antes de constituírem a sociedade do anel os membros das mais diversas raças se assentam em volta do um anel para discutirem sobre seus destinos. Na lenda de Arthur, os cavaleiros távola redonda, assentavam-se ao redor de uma mesa, que foi criada com este formato para que não tivesse cabeceira, representando a igualdade de todos os seus membros. Em algumas pinturas dos séculos remanescentes o Graal era, também, objeto central da mesa e discussão. É notória a mesma idéia arturiana de igualdade em Valfenda, já que Elrond que preside a reunião do conselho dirige-se a todos de maneira igualitária, mesmo que de raças e culturas diferentes. Assim também acontecia com os cavaleiros de Artur.

Entre as principais lendas Arturianas encontramos importantes referências sobre o Graal e sua demanda. Em 1190 a primeira referência Literária foi feita ao assunto. O conto do Graal, escrito pelo francês Chrétien de Troyes, deu início a inúmeras canções, livros e poemas sobre a interminável saga da relíquia sagrada. As narrativas constituem-se em uma saga heróica em busca de um objeto que concerne grandes poderes ao seu portador. Que soe até um pouco clichê meus amigos, mas nós sabemos que o grande Graal de Tolkien foi o “Um Anel”, que em toda saga sempre gerou conturbações nos corações daqueles que o possuíam e o desejavam. Tanto o Graal quanto o “Um Anel” demandavam uma busca em torno de um objetivo comum: exterminar o mal.

Avalon? Sim! Avalon! Era o paraíso do ciclo arturiano, também conhecido como terra das maçãs, onde acreditava-se em algumas versões da lenda, ser governada pelas sacerdotisas do outro mundo. Em outras versões da lenda, Rei Artur foi levado até a ilha para ser curado de um ferimento mortal. Encontra-se uma boa descrição em livros de história da Bretanha:

“Essa ilha rodeada pelo oceano não se vê afligida por nenhuma enfermidade. Não há ladrões, nem crimes. Não há neve, nem bruma, nem calor desmedido. Reina nela a paz eterna. Jamais faltam flores… nem os frutos nas folhagens. Os habitantes não têm defeitos, sempre são jovens.” (Guillaume de Rennes, Gesta regum Britannie)

Após essa descrição de Avalon, não podemos deixar de associar ao paraíso criado por Tolkien: As terras imortais. Entre alguns dos pontos mais importantes das terras imortais está Tirion: A cidade dos elfos construída sobre a colina de Túna.

“E então, através da Calacirya, a Passagem da Luz, jorrava o esplendor do Reino Abençoado, aquecendo as ondas escuras com tons de prata e ouro e tocando a Ilha Solitária, o que tomou sua costa oeste verde e bela. Ali surgiram as primeiras flores que existiram a leste das Montanhas de Aman. No topo de Túna, foram construídos a cidade dos elfos, as brancas muralhas e os terraços de Tirion; e a mais alta das turres dessa cidade era a Torre de Ingwë, Mindon Eldaliéva, cuja lamparina de prata brilhava longe, em meio às névoas do mar. Poucos foram os navios de homens mortais que viram seu facho estreito.” (O Silmarillion, cap. 5, pag. 32)

É necessário frisar sobre a existência de Avallónë, a cidade porto dos Teleri. Avallónë era a ligação até as terras imortais. Muito bem irmãos, coincidências ou não, estou aqui apenas para esclarecer sobre aspectos mitológicos e as bases literárias do professor Tolkien. Seja como for, é uma opção para aqueles que vêem o professor como um grande gênio, criador de um mundo completo, bem embasado e “liquidificado” nas mais diversas lendas. Não obstante, sei que esses são só alguns pontos, mas quando voltar das terras imortais prometo contar algumas verdades a vocês.

 

Written by | Diego Silva

Diretor da Medieval and Mythology, Teólogo por formação e Mitologista por paixão.

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