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kells071

Com o passar dos anos, as traduções bíblicas perderam sua essência original. Fato é que, se estudarmos as mitologias judaica, egípcia e grega que eram do contexto bíblico, percebemos que os tradutores, tentaram, a todo custo eliminar traços mitológicos do Livro Sagrado. Ainda hoje, nas escrituras, encontramos resquícios de seres mitológicos expressos nas mais diversas culturas. Podemos considerar até mesmo, que a palavra de Deus, é uma universalização dos mitos, onde no contexto bíblico, todos aparecem em conjunto, sem separação por mitologias. Dragões, Basiliscos, Unicórnios, Behemoth, Fênix, Leviatã e até mesmo sátiros, são encontrados nas escrituras. Para grande parte desta pesquisa, foi utilizada a bíblia versão “Almeida revista e corrigida, edição de 1995”, a qual é considerada ter uma tradução mais fiel aos escritos originais. Nascida no deserto junto com Moisés, os escritos bíblicos, seguiram o ritmo do povo e as crenças na Palestina. A bíblia é uma coletânea de livros e passagens que foram escritos por diferentes autores ao redor dos séculos. Os protestantes e judeus incluem 39 livros: A torá ou pentateuco,que compreende Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; Temos também os livros históricos: Josué, Juízes, Samuel I e II, Reis I e II, Crônicas I e II, Esdras e Neemias; Os livros proféticos, Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias; Não obstante estão os livros poéticos e sapienciais, como, Salmos, Provérbios, Jô, Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester e Ruth. Na versão católica nota-se a presença de outros livros e também traduções diferenciadas. Existem mais seis escritos, provenientes da Septuaginta, ou versão grega dos setenta: Macabeus I e II, Baruch, Sabedoria, Sirácido, Tobias e Judith, além de alguns acréscimos nos livros de Daniel e Ester. Na bíblia hebraica, Daniel não está classificado como um livro profético. Os livros do Antigo Testamento foram escritos em hebraico, salva exceção em alguns trechos em aramaico e em grego. O conjunto dos livros cristãos do Novo Testamento, escrito em grego, compreende os quatro Evangelhos, Atos dos apóstolos, Epístolas de Paulo, Tiago, Pedro João, Judas e Apocalipse. Assim como nas mitologias pagãs, que possuem suas próprias coletâneas de mitos, deidades e bestiários, a Bíblia é referência essencial na mitologia judaico-cristã. Na Bíblia é notória a linguagem simbólica, onde representações são utilizadas para denotar uma figuração sobre os personagens principais. Como exemplo disso, temos o Leviatã. O ser é visto com supremacia sobre todas as raças, abaixo somente de Deus, denotando assim , o grande antagonista: O Diabo.   “1 Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda? … 33,34 Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor. Ele vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba…” (Jó 41)   Nas lendas judaicas pode ser que o Leviatã tenha advindo do mito de Tiamat, uma deusa da mitolologia babilônica e suméria, que por vezes é descrita como serpente/dragão do mar. As criaturas descritas na bíblia possuem uma origem um tanto obscura e desconhecida. Se observarmos outra passagem no livro de Isaías encontramos:   “1 Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, a serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão que {está} no mar.” (Isaías 27)               Na antiga literatura aramaica, o Leviatã era um monstro de sete cabeças, inimigo da ordem criada por Deus. Deste modo, Isaías, está comprando a vitória de Deus sobre os iníquos. Leviatã (Leviathan ou Leviatha) é dado na demonologia como um dos quatro príncipes coroados do inferno. É o monstro marinho bíblico, de enormes proporções e rei de todas as criaturas do mar. Seu nome vem do hebraico, e significa literalmente; Serpente Tortuosa, uma referência tanto a sua natureza animalesca como ao seu aspecto oculto.  Além de ser uma criatura abissal de proporções colossais constata, descrito no livro de Jó, uma série de características que expõe tal ser:   “12 Não me calarei a respeito dos seus membros, nem da sua grande força, nem a graça da sua compostura. 13 Quem descobrirá a face da sua roupa? Quem entrará na sua couraça dobrada? 14 Quem abrirá as portas do seu rosto? Pois ao redor dos seus dentes está o terror. 15 As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado. 16 Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas. 17 Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar. 18 Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva. 19 Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. 20 Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira. 21 O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama. 22 No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer. 23 Os músculos da sua carne estão pegados entre si; cada um está firme nele, e nenhum se move. 24 O seu coração é firme como uma pedra e firme como a mó de baixo. 25 Levantando-se ele, tremem os valentes; em razão dos seus abalos se purificam. 26 Se alguém lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou flecha. 27 Ele considera o ferro como palha, e o cobre como pau podre. 28 A seta o não fará fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho. 29 As pedras atiradas são para ele como arestas, e ri-se do brandir da lança; 30 Debaixo de si tem conchas pontiagudas; estende-se sobre coisas pontiagudas como na lama. 31 As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento. 32 Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.  (Jó 41)   Ainda em Jó, temos outra criatura presente que perdurou por outras mitologias: O Beemote. Segundo uma lenda judaica, o Beemote e o Leviatã se enfrentarão no final dos tempos, matando um ao outro, onde que suas carnes serão servidas aos homens que sobreviverem. Observando a lenda, vemos o arquétipo original na luta entre o bem e o mal, Deus e Satanás.   “15.Contempla agora o Beemote, que eu criei contigo, que come a erva como o boi. 16.Sua força está nos seus lombos, e o seu poder, nos músculos do seu ventre. 17.Endurece a sua cauda como cedro; os tendões das suas coxas estão entretecidos. 18.Os seus ossos são como tubos de bronze, o seu arcabouço, como barras de ferro. 19.Ele é obra-prima dos feitos de Deus; quem o fez o proveu de espada. 20.Em verdade, os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam. 21.Deita-se debaixo dos lotos, no esconderijo dos canaviais e da lama. 22.Os lotos o cobrem com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam. 23.Se um rio transborda, ele não se apressa; fica tranqüilo ainda que o Jordão se levante até à sua boca. 24.Acaso, pode alguém apanhá-lo quando ele está olhando? Ou lhe meter um laço pelo nariz?” (Jó 40)               O livro de Jó é permeado de seres do imaginário fantástico. O que nos leva a entender que quando Deus se apresenta a Jó e faz diversas indagações sobre o mundo animal, Deus utiliza-se das grandes feras e animais supostamente fantásticos para denotar a força ou invencibilidade para seu servo Jó. “9 Querer-te-á servir o unicórnio ou ficará ele na tua cavalariça? 10 Ou amarrarás o unicórnio ao rego com uma corda, ou estorroará após ti os vales” (Jó 39)               Na cultura medieval o unicórnio é visto como símbolo de poder e pureza, que é nitidamente expresso na presença do único chifre. Na china antiga o unicórnio representa a realeza e as virtudes régias. Nos trechos citados, fica clara, a intenção de Deus em evidenciar a Jó que se nem um ser tão forte e perfeito pode ser subjugado, quanto mais a força divina. Se analisarmos o contexto mitológico empregado na bíblia, vemos que alguns dos seres citados carregam simbologias associadas ao bem e ao mal. Enquanto o Leviatã, por exemplo, é o grande antagonista, o Beemote e o Unicórnio são considerados utópicos seres majestosos do reino animal. De igual maneira, o Basilisco evoca o parecer maléfico e tudo que é associado ao negativismo: “5 Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha: o que comer dos ovos deles morrerá; e, apertando-os, sai deles uma víbora.” (Isaías 59)   No trecho acima, Deus fala ao povo através de Isaías, usando de figurações maléficas a respeito da rebelião de judá. É evidente que o pecado é comparado com a temível criatura: O Basilisco. Nos tempos medievais tal ser foi muito usado na heráldica para representar as forças ocultas e lendas corriam por toda Europa. Nas versões mais conhecidas, o Basilisco, era um réptil fabuloso que matava com um simples olhar, ou só com o hálito, nascido de um ovo de galo chocado por um sapo ou rã. Fato é que em algumas traduções das lendas, comparam o Basilisco à Górgona, cuja visão bastava para causar a morte. Arquétipos de inimigos são o que não faltam na mitologia judaico-cristã. Em muitos trechos da bíblia vemos serpentes, víboras e junto com o Basilisco também está o Dragão.   “9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o diabo e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.” (Apocalipse 12)               De certo que aí está associação mais evidente do mal. O dragão e Satanás. A cultura cristã foi a que mais influenciou a visão dos dragões na idade moderna. O controle total do mal, segundo as escrituras, só se dará por completo quando o grande dragão for lançado ao abismo e trancafiado no juízo final. Não obstante fugindo um pouco dos símbolos específicos oriundos do bem e mal, existem seres amplamente difundidos nas mitologias e conhecidos em diversas literaturas. Em algumas traduções da bíblia, a Fênix é citada claramente em Jó:   “Eu dizia: Morrerei em meu ninho, meus dias serão tão numerosos quanto os da fênix.” (Jó 29)               A passagem citada acima foi tirada da tradução da bíblia católica, sendo que em outras traduções, a palavra Fênix seria substituída por pó ou areia. O sentido usual de chol (חול) em hebraico é “areia”. A interpretação como “fênix” (que, na tradição judaica, vive mil anos) deve-se a uma tradição repetida pelo rabino francês Shelomo Yitzhaki, do século XI, provavelmente influenciada pela presença da palavra “ninho”. A outra tradução deve-se à ambigüidade da palavra grega phoinix, que significa tanto “palmeira quanto “fênix”: Segundo a tradição, a ave fazia seu ninho na palmeira. Ainda há outra passagem que não cita expressamente o ser, mas na descrição percebemos semelhanças inegáveis entre a fênix das mais diversas mitologias e o pássaro descrito:   “3 E dize: Assim diz o Senhor Jeová: Uma grande águia, de grandes asas, de farta plumagem, cheia de penas de várias cores, veio ao Líbano e levou o mais alto ramo dum cedro.” (Ezequiel 17) Assim como a fênix descrita nas literaturas, era uma grande ave de penas multicolores e pousava seu ninho sobre a palmeira ou cedro que eram coníferas: Símbolo de imortalidade que sempre foi associada à ressurreição da fênix. As referências nos antigos mitos gregos vão além da fabulosa fênix. Existem ainda outros seres que permeavam a mitologia do mundo clássico, sendo que, estes, estavam intrinsecamente ligados.     “14 E os cães bravos se encontrarão com os gatos bravos; e o sátiro clamará ao seu companheiro: e os animais noturnos ali pousarão, e acharão lugar de repouso para si.” (Isaías 34)   “7 Nunca mais oferecerão os seus sacrifícios aos sátiros, com os quais se prostituem. Esta será para eles uma lei perpétua de geração em geração.” (Levítico 17)   “21 Mas as feras do deserto repousarão ali, e as suas casas se encherão de horríveis animais; e ali habitarão as avestruzes, e os sátiros pularão ali” (Isaías 13)     Nas traduções do Antigo Testamento, o termo “sátiro” é às vezes usado como tradução do hebraico se’irim, “peludos”,que pode se entender por “demônios” ou “bodes”. No folclore dos antigos hebreus, se’irim era um tipo de daimon ou ser sobrenatural que habitava lugares desolados. Existe uma alusão à prática de realizar sacrifícios aos se’irim em Levítico, 17:7. Essas entidades podem estar relacionadas ao “azabb al-akaba”, ou demônio peludo, das lendas árabes. Nos mitos gregos e romanos, os sátiros eram parte homem, parte bode, sendo considerados espíritos das montanhas. Eram filhos dos bodes com as ninfas, os sátiros eram conhecidos por perseguirem as ninfas pelos bosques. Aliás falando em ninfas, espíritos femininos da natureza, também existe uma citação de tal ser nas escrituras:   “15 Saudai aos irmãos que estão em Laodicéia e a Ninfa e à igreja que está em sua casa.” (Colossenses 4)   Não sabemos até que ponto as traduções bíblicas tendem a ser influenciadas por traços mitológicos. As ninfas em algumas traduções das lendas gregas, são consideradas fadas, porém sem asas. Estando ligadas a um local específico ou objetos. Fato é que, no trecho citado não se pode afirmar qual o real significado da palavra ninfa. Estudiosos sugerem que seja um nome próprio e não uma divindade menor. De certo que morreremos com a dúvida se nesta passagem existe ou não tal ser fantástico. Que a bíblia é fonte de inúmeras passagens não temos dúvidas. Também de que é uma rica base de estudos para mitologias. Infelizmente não sabemos o quanto os escritos originais foram modificados e adaptados, mas por isso podemos dizer que estamos na luta para trazer à tona os enigmas do passado.  

Written by | Diego Silva

Diretor da Medieval and Mythology, Teólogo por formação e Mitologista por paixão.

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